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Dossiê leva debate racial para critérios de áudio, linguagem e contratação no audiovisual

A Cor do Som reúne entrevistas com 24 pessoas e descreve relatos sobre remuneração, reconhecimento, distribuição de funções e padrões considerados adequados para sons e formas de falar.
Dossiê leva debate racial para critérios de áudio, linguagem e contratação no audiovisual
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O dossiê A Cor do Som examina manifestações de racismo na indústria do som e em diferentes áreas do audiovisual brasileiro a partir de relatos sobre critérios técnicos, linguagem e relações de trabalho. O estudo foi elaborado pela Semiótica Antirracista e pelo Estúdio Nina, com apoio da empresa Audiolivros.

Os pesquisadores ouviram 24 pessoas: 18 profissionais negros das áreas técnica e criativa do audiovisual, quatro acadêmicos e duas personalidades envolvidas no debate racial. Os nomes das duas últimas não foram divulgados. O levantamento foi lançado no início do Novembro Negro, período dedicado à Consciência Negra.

Som tratado como neutro

Na análise da produção sonora, o dossiê afirma que o audiovisual brasileiro segue um paradigma de origem europeia, colonial e elitista. Segundo os autores, operadores de som recebem orientações para buscar um áudio considerado o mais “higienizado” possível.

Essa prática envolveria a retirada de ruídos e interferências associados à rua, à praça e ao povo. Para os pesquisadores, o procedimento pode descartar sons periféricos e marcas culturais afro-brasileiras. O estudo defende a necessidade de questionar a ideia de neutralidade técnica nas produções sonoras.

O levantamento também ressalta que não existe uma “voz de preto” ou uma “voz de branco”, porque os timbres humanos são diversos. Ainda assim, identifica a valorização de determinados padrões como parte das formas pelas quais hierarquias raciais podem aparecer no setor.

Hierarquias na linguagem

Outra frente analisada é o uso da linguagem nos produtos audiovisuais. De acordo com os autores, a prevalência da norma-padrão cria uma hierarquia entre diferentes maneiras de falar e reduz a pluralidade àquilo que é tratado como erro.

O dossiê menciona o conceito de “Pretuguês”, associado à intelectual e ativista Lélia Gonzalez (1935-1994). A expressão é apresentada como referência a um modo de falar português marcado por elementos fonéticos e sintáticos de línguas africanas. Entre os exemplos citados estão a troca do “L” pelo “R”, como em “probema”, e a substituição do “LH” por “I”, como em “faia”.

Relatos sobre o mercado

Nas entrevistas com profissionais negros, os pesquisadores registraram queixas sobre salários menores que os pagos a pessoas brancas em funções equivalentes, contratações associadas à aceitação de remunerações mais baixas e dificuldade para cobrar valores compatíveis com a qualificação.

Também foram relatadas a necessidade de trabalhar mais para demonstrar competência e a falta de reconhecimento por projetos desenvolvidos pelos próprios profissionais. Um entrevistado da área criativa afirmou que acumulava tarefas de produção de palco, ligações telefônicas, edição e captação. Depois de reivindicar remuneração compatível, disse ter sido desligado por e-mail e substituído por uma influenciadora branca.

Outro profissional relatou que, embora fosse responsável pelo desenvolvimento de um projeto e fosse quem mais trabalhava, era a pessoa menos ouvida. O depoimento descreve a necessidade de insistir para que sua capacidade fosse reconhecida.

Funções e enquadramento racial

O estudo afirma que profissionais negros são mais frequentemente direcionados a trabalhos técnicos e operacionais, enquanto funções criativas e de tomada de decisão permanecem majoritariamente associadas a pessoas brancas. Um entrevistado da área de cinema questionou por que não poderia atuar como produtor depois de passar por atividades como som, montagem e assistência de produção.

Os pesquisadores também descrevem situações em que a identidade racial se torna o principal marcador profissional. Um dos entrevistados afirmou que ser apresentado continuamente como “o negro” de determinado espaço pode funcionar como uma forma de aprisionamento, atingindo ocupações como jornalismo, escrita e roteiro.

Outra percepção reunida no dossiê é a de que produções realizadas por pessoas negras são tratadas como destinadas a um público específico, enquanto obras feitas por pessoas brancas seriam vistas como voltadas ao público geral. Um profissional resumiu essa experiência dizendo que tudo o que pessoas pretas falam é considerado escutado apenas por pessoas pretas e, por isso, classificado como “nicho”.

O estudo se baseia nas percepções dos entrevistados e não apresenta dados quantitativos. Assim, os relatos registram experiências e interpretações sobre o setor, mas não medem a frequência das situações descritas em toda a indústria do audiovisual.

Fonte: Agência Brasil Direitos Humanos.

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil